Está a pensar em comprar um carro elétrico? Se a resposta for “sim”, é importante saber que uma nova lei emanada de Bruxelas vai poderá vir a ter impacto no valor que irá pagar.
Depois de ser completamente ultrapassada pelo dinâmico regime comunista chinês, a Comissão Europeia tenta apanhar os cacos da sua própria incapacidade, que é como quem diz: legislar em prol do chamado “Made in Europe”.
O que é, na prática, o Made in Europe?
Como referimos, a Comissão Europeia, no intuito de tentar emendar a mão e reindustrializar a Europa, apresentou formalmente o Industrial Accelerator Act (IAA), uma lei que representa, nas palavras do próprio comissário Stéphane Séjourné, “uma mudança de doutrina que teria sido impensável há apenas alguns meses”.
Assim nasce o Made in Europe, uma lei que vai obrigar a que, pelo menos, 70% dos componentes (excluindo a bateria) utilizados pelos fabricantes de automóveis sejam produzidos na União Europeia e medidos pelo valor dos componentes.
No “core” desta legislação está, assim, a necessidade de um veículo elétrico ter de ser fabricado na Europa para poder aceder a subsídios públicos, mas ainda há mais pormenores a considerar.
Por exemplo, a montagem final do veículo também terá de acontecer em solo europeu e aplica-se não só aos automóveis 100% elétricos, como também aos híbridos plug-in (PHEV) e aos carros movidos a hidrogénio.
No caso das baterias, a lei não define uma percentagem fixa, mas exige que os componentes-chave das baterias sejam de origem europeia, um ponto estratégico dado que as baterias representam cerca de 30% do valor total de um veículo elétrico e são maioritariamente fornecidas por cadeias de produção chinesas.
Porquê agora?
Já deixamos algumas pistas em relação ao porquê desta lei aparecer neste momento e, claro, relaciona-se com os carros chineses elétricos tecnologicamente avançados e significativamente mais baratos do que os produzidos na Europa que, ao longo de décadas, subsidiou o fim de várias indústrias e perdeu competitividade.
Em simultâneo com a ascensão chinesa, os diversos governos europeus continuam a oferecer incentivos fiscais e subsídios à compra de veículos elétricos, dinheiro que, na prática, poderá beneficiar a indústria automóvel chinesa.
Tal como a maior parte da política europeia, esta nova lei foi influenciada Inflation Reduction Act americana, legislação protecionista que procura desencadear uma vaga de reindustrialização.
O objetivo do Made in Europe é ambicioso, ainda que o mercado europeu continue a perder competitividade, e pretende aumentar o peso da indústria transformadora no PIB europeu dos atuais 14,3% para 20% até 2035.
O que muda?
Como sublinhámos anteriormente, a Made in Europe (nome pedido emprestado à vaga de industrialização italiana nos anos 50/60 do séc. XX denominada Made in Italy), 70% dos componentes dos veículos elétricos terão de ser fabricados em Portugal, contudo, isto vai causar muitos problemas aos fabricantes.
Por exemplo, ao passo que o Volkswagen ID.3 qualifica-se relativamente bem, com a maioria dos seus componentes produzida dentro da EU, o Renault 5 já está fortemente dependente de componentes chineses, mas poderá cumprir os requisitos se a bateria for excluída do cálculo.
Tal como tem acontecido desde a sua fundação, esta lei vida proteger, logo em primeiro lugar, a indústria automóvel alemã que, desde o fim do gás e petróleo russos, tem enfrentado enormes dificuldades.
Potenciais impactos para o consumidor
Ao se virem obrigados a reestruturar completamente as suas cadeias de produção, os fabricantes de automóveis elétricos vão enfrentar custos-extra que, posteriormente, poderão ser transmitidos ao consumidor final.
Ou seja, os carros elétricos serão mais caros, mesmo com subsídios, logo menos acessíveis, o que contradiz os objetivos de descarbonização do transporte.
Já do lado dos eurofanáticos, estes afirmam que esta lei caída de chofre no seio das cadeias de produção automóvel, irão, a longo prazo, resultar numa indústria europeia mais robusta que ajudará a criar economias de escala que permitirão baixar os preços.
Além desta defesa, eles afirmam que, sem esta proteção, a alternativa seria a desindustrialização progressiva, com todas as consequências em termos de emprego e soberania económica.
Quem apoia e quem se opõe?
Como seria de esperar, a lei Made in Europe divide opiniões.
Do lado dos defensores, encabeçados pela indústria automóvel alemã, defende-se que, não exigir conteúdo local seria muito perigoso para a indústria europeia dado os concorrentes chineses pagarem 30% menos pelas matérias-primas e, dizem, não jogarem pelas mesmas regras neoliberais da UE, regras essas que, relembre-se, trouxe a Europa até este ponto.
Porém, nem todos os fabricantes alemães defendem a ideia. No caso da BMW, esta alerta para o risco de a legislação criar custos adicionais desnecessários e excesso de burocracia.
Um dos grandes problemas que a nova lei vem levantar é a da relação com os aliados Reino Unido, Turquia e Japão, uma vez que a lei considera como conteúdo europeu apenas os componentes provenientes dos 27 estados-membros da UE, mais a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega, o chamado Espaço Económico Europeu.
