Até à pandemia de Covid-19, não era habitual pensarmos com tanto afinco na vacinação, mas a verdade é que a calamidade que se abateu sobre toda a Humanidade transformou o assunto “vacinação” em algo muito presente e até polémico.
Apesar do crescimento dos movimentos antivacinas que, sem qualquer evidência científica, insistem em lançar anátemas e criarem teorias da conspiração sobre o processo de vacinação, algo que em países como os EUA resultaram em epidemias de sarampo, a maioria dos cidadãos confia nas vacinas.
Em Portugal, o papel de garantir que os cidadãos estão protegidos contra doenças potencialmente fatais é assegurado pelo Programa Nacional de Vacinação, um programa nacional, gratuito e acessível a todas as pessoas que vivem neste rectângulo à beira-mar plantado.
Programa Nacional de Vacinação: em que consiste?
Criado ainda durante a ditadura salazarista, o Programa Nacional de Vacinação (PNV) teve o seu pontapé de saída a 4 de outubro do ano de 1965 com o objetivo de diminuir a mortalidade infantil em Portugal (extremamente elevada em comparação com outros países europeus), numa campanha de vacinação em massa da poliomielite.
Esta vacinação universal, acabou por ter, como esperado, um impacto imediato com uma redução abrupta do número de casos de poliomielite em crianças até aos 9 anos.
A eficácia da vacinação universal e gratuita comprovou-se, ainda, pela erradicação da varíola em 1980, a eliminação da poliomielite na Europa em 2002 e pelo controlo de doenças como a difteria, sarampo e do tétano neonatal, cobertas pelas vacinas do PNV.
Desde o seu início, o PNV, além de universal e gratuito, oferece vacinas cientificamente comprovadamente eficazes e seguras e tem um calendário recomendado e dinâmico que pretende atingir elevadas coberturas vacinais.
Vacinação: porque é tão importante?
Não é excessivo dizermos que as vacinas salvam vidas, já que, a sua inoculação numa elevada percentagem de indivíduos, permite controlar doenças evitáveis com significativa redução da morbimortalidade.
Esse é o caso do sarampo que, na Europa e EUA, ocorreu maioritariamente em pessoas que não estavam vacinadas. Isto é ainda mais importante se estivermos a falar de crianças, uma vez que uma criança não vacinada, ainda que saudável, continua suscetível ao sarampo e às suas complicações.
Princípios básicos da vacinação
Na prática, o processo de vacinação consiste na administração de um ou mais antigénios que, posteriormente, vão desencadear a produção de anticorpos tal como acontece na presença de doença, gerando o mínimo de efeitos secundários.
Assim, com a inoculação de vacinas, estes anticorpos vão funcionar como uma barreira de proteção do nosso corpo quando este estiver em contacto com um agente infeccioso.
Verificou-se, igualmente, que algumas vacinas também podem ter outro mecanismo de proteção associado, como é o caso da imunidade de grupo ou proteção indireta.
O processo é simples. Ao interferir na colonização, prevenindo-a ou reduzindo a sua densidade no indivíduo vacinado, tal vai traduzir-se na prevenção ou redução da transmissão para os não vacinados que ficam assim menos expostos e não adquirem o microrganismo.
Para uma melhor proteção, algumas vacinas exigem a administração de mais do que uma dose em intervalos que devem ser respeitados para não reduzirem a concentração final de anticorpos protetores.
E é aqui que entra o calendário de vacinação e a importância de o cumprirmos à risca, já que intervalos inferiores aos mínimos aconselhados podem diminuir a resposta imunológica e estas doses não devem ser consideradas válidas.
Calendário de Vacinação Nacional
Recentemente, o calendário de vacinação em Portugal sofreu algumas alterações, nomeadamente:
- Vacina contra o HPV é alargada ao sexo masculino, administrada aos 10 anos de idade, aplicável aos nascidos a partir de 1 de janeiro de 2009 (esquema pode ser completado ou iniciado);
- Vacina contra doença invasiva porcdo grupo B (vacina MenB) é alargada a todas as crianças aos 2, 4, e 12 meses de idade, aplicável aos nascidos a partir de 1 de janeiro 2019 (esquema pode ser iniciado ou completado);
- Vacina contra o rotavírus (vacina ROTA) para grupos de risco também passou a integrar o Programa Nacional de Vacinação, mas esta será aplicada apenas para grupos de risco, a definir em Norma da Direção-Geral da Saúde.
Feita esta ressalva, o calendário de vacinação em Portugal, revisto em 2020 contempla as seguintes vacinas e momentos de vacinação:

Nota: As vacinas extra plano do PNV são prescritas por indicação médica e administradas se houver concordância entre a recomendação médica e a opinião dos pais.
Nunca é demais sublinhar, a vacinação resultou em excecionais ganhos em saúde, com erradicação, eliminação e controlo de várias doenças infecciosas.
Contudo, tal só continuará a ser possível se forem atingidas elevadas taxas de vacinação, uma vez que existe risco de reemergência, sobretudo devido às teorias da conspiração antivacinas, se as coberturas vacinais entretanto alcançadas não forem mantidas ou não se distribuírem homogeneamente na população (bolsas de suscetíveis).
